Com 4 ouros, Nordeste alcança protagonismo inédito na história das Olimpíadas

O Brasil faz uma campanha histórica nas Olimpíadas de Tóquio-2020. Superou o número total de medalhas obtidas no Rio-2016 e ainda pode bater o recorde de sete ouros conquistados na última edição dos Jogos. Para isso, teve como trunfo uma região pouco valorizada no circuito esportivo do país: o Nordeste.

Nunca antes os atletas nordestinos haviam sido tão fundamentais para a campanha do Time Brasil. Dos sete ouros conquistados no Japão, quatro vieram de lá: o potiguar Italo Ferreira (surfe) e os baianos Ana Marcela Cunha (maratona aquática), Isaquias Queiroz (canoagem) e Hebert Conceição (boxe).

Outro ouro pode vir da região, já que mais uma baiana, Bia Ferreira, disputa final da categoria até 60 kg com a irlandesa Kellie Anne Harrington neste domingo, às 2h (de Brasília).

Não bastasse isso, foi de lá uma das histórias mais bonitas contadas pelo Brasil nas Olimpíadas: a prata da carismática skatista Rayssa Leal, mais jovem atleta e medalhista olímpica do país. Aos 13 anos, a maranhense de Imperatriz conquistou a prata no skate street, na estreia da modalidade nos Jogos.

É um protagonismo que o Nordeste nunca teve em 101 anos de participação olímpica do Brasil. O país estreou nos Jogos na Antuérpia, em 1920, com o destaque para um atleta vindo de outra região negligenciada pelos investimentos esportivos do país, o Norte.

Guilherme Paraense, honrando o sobrenome, de fato tinha nascido no Pará, em Belém. O atirador foi responsável pelo primeiro ouro brasileiro em Olimpíadas, na pistola rápida, e integrou o primeiro bronze, na pistola livre por equipes. Nunca mais um atleta nascido no Norte subiu ao topo do pódio olímpico em provas individuais.

Já o Nordeste se tornou peça mais importante na campanha olímpica do Brasil apenas em 2021. Segundo levantamento da Folha, em total de medalhas, o Sudeste ainda é a principal região do país no quadro de Tóquio-2020, com nove (2 ouros, 2 pratas e 5 bronzes). O Sul contribui com quatro pódios (1 prata e 3 bronzes). Norte e Centro-Oeste não tiveram representantes entre os três primeiros colocados no Japão.

O Nordeste se destaca, ganhando mais ouros nas provas individuais do que havia conquistado em todas as Olimpíadas anteriores somadas -além das quatro medalhas de ouro, soma também uma prata em Tóquio-2020.

Para o levantamento histórico, foram consideradas apenas provas individuais (uma medalha para cada atleta), de duplas (com peso de 0,5 medalha para cada um) ou quartetos (como no revezamento 4 x 100 m do atletismo, com divisão de 0,25 medalha para cada integrante da equipe). Esportes coletivos não entraram neste levantamento pois iriam fracionar entre muitos nomes o peso da medalha.

Por esse critério, a melhor campanha anterior dos nordestinos havia sido na Rio-2016, quando conquistaram um ouro, duas pratas e um bronze. Na ocasião, o fator Isaquias Queiroz foi decisivo. O canoísta, nascido em Ubaitaba (BA), ganhou duas pratas e um bronze. Em um dos vice-campeonatos, dividiu a canoa com outro baiano, Erlon Silva, de Ubatã.

O ouro foi conquistado por outro baiano, Robson Conceição, o primeiro do Brasil no boxe olímpico. A marca do pugilista foi igualada por Hebert Conceição em Tóquio. Apesar de ambos serem de Salvador, praticarem o mesmo esporte e terem sobrenome igual, não são parentes.

Hebert venceu, neste sábado (7), o ucraniano Oleksandr Khyzhniak por nocaute na final da categoria médio. Orgulhoso de suas raízes, o baiano entrou no ringue ao som de de “Madiba”, música do grupo Olodum, que faz referência a um “nobre guerreiro”.

A boa campanha em Tóquio-2020 mostra que há muito talento na região para diversas modalidades. Para Ary Rocco Júnior, professor da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, é necessário mais projetos para detectá-los e lapidá-los.

“O que falta é uma política pública consistente de direcionamento do governo federal para investimento no esporte educacional. Esse investimento vai tirar da rua jovens em situação de risco, vai dar uma socialização e ensinar os valores do esporte. Da quantidade fica mais fácil extrair as promessas. Aqueles que eventualmente tenham talento deveriam ser encaminhados para projetos sociais específicos ou entidades esportivas onde pudessem ter uma estrutura de treinamento para evoluir”, afirma Rocco Júnior, que é especialista em gestão esportiva. “Mas não há política de massa para detectar talentos para o alto rendimento”, lamenta.

Sem essas políticas públicas, até estrangeiros naturalizados subiram ao pódio olímpico, em provas individuais ou em duplas, antes de brasileiros nascidos no Nordeste. Ou seja, a escassez de investimentos tornou mais fácil até para imigrantes radicados no Sudeste ganharem medalha olímpica pelo Brasil.

Foi o caso do alemão Burkhard Cordes, bronze na classe flying dutchman da vela em parceria com Reinaldo Conrad, nos Jogos da Cidade do México, em 1968. Quatro anos depois, em Munique, o japonês naturalizado Chiaki Ishii conquistou o bronze no judô, o primeiro do Brasil na história olímpica. Em Moscou-1980, o sueco de nascimento Lars Bjorkstrom, com Alex Welter, ganhou o ouro olímpico para o Brasil na classe tornado da vela.

Pelos critérios do levantamento da Folha, o Nordeste só subiu ao pódio olímpico pela primeira vez nos Jogos de Sydney-2000, mas já mostrava diversidade. O baiano Ricardo e o paraibano Zé Marco foram prata no vôlei de praia. A cearense Shelda, com a carioca Adriana Behar, também foi vice-campeã olímpica na modalidade.

Já nos revezamentos, a força do Nordeste também se fez presente. O potiguar Vicente Lenilson integrou a equipe de 4 x 100 m do atletismo na final que terminou em segundo lugar, atrás apenas dos Estados Unidos. O piauiense Cláudio Roberto de Souza era reserva do time e correu nas eliminatórias. Já o baiano Edvaldo Valério foi membro decisivo na conquista do bronze nos 4 x 100 m livre da natação.

O primeiro ouro nordestino só viria em Atenas-2004, mas ainda “dividido”. O baiano Ricardo, agora em dupla com o paranaense Emanuel, conquistou o título olímpico do vôlei de praia. Em uma prova individual, a glória só seria alcançada em Londres-2012, quando a piauiense Sarah Menezes ganhou o ouro no judô, na categoria até 48 kg.

Veja abaixo os nordestinos medalhistas olímpicos do Brasil em provas individuais, de duplas ou quartetos:

Sydney-2000
Ricardo/Zé Marco (prata/vôlei de praia)
Shelda (prata/vôlei de praia)
Vicente Lenilson (prata/4 x 100 m do atletismo)
Claudio Roberto de Souza (prata/reserva do 4 x 100 m do atletismo)
Edvaldo Valério (bronze/4 x 100 m livre da natação)

Atenas-2004
Ricardo (ouro/vôlei de praia)
Shelda (prata/vôlei de praia)

Pequim-2008
Márcio Araújo (prata/vôlei de praia)
Ricardo (bronze/vôlei de praia)
Bruno Lins, José Carlos Moreira e Vicente Lenilson, (bronze/4 x 100 m do atletismo)

Londres-2012
Sarah Menezes (ouro/judô)
Larissa (bronze/vôlei de praia)
Yane Marques (bronze/pentatlo moderno)

Rio de Janeiro-2016
Robson Conceição (ouro/boxe)
Isaquias Queiroz e Erlon Silva (prata/C2-1.000 m da canoagem)
Isaquias Queiroz (prata/C1-1.000 m da canoagem)
Isaquias Queiroz (bronze/C1-200 m da canoagem)

Tóquio-2020
Ana Marcela Cunha (ouro/maratona aquática)
Hebert Conceição (ouro/boxe)
Isaquias Queiroz (ouro/C1-1.000 m da canoagem)
Italo Ferreira (ouro/surfe)
Rayssa Leal (prata/skate)

 

 

Folha Press

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Joaquim Franklin

Formado em jornalismo pelas Faculdades Integradas de Patos-PB (FIP) e radialista na Escola Técnica de Sousa-PB pelo Sindicato dos Radialistas da Paraíba.

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