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Como nasceu na Band o primeiro debate presidencial da TV brasileira

Como nasceu na Band o primeiro debate presidencial da TV brasileira

Em 1989, o Brasil voltava a escolher um presidente pelo voto direto depois de quase três décadas. No estúdio da Band, nove candidatos de diferentes correntes políticas ficaram frente a frente diante das câmeras para defenderem suas ideias para um Brasil que voltava a dar seus primeiros passos rumo à plena democracia.

Era o primeiro debate presidencial da televisão brasileira. Por trás da ideia estava Fernando Mitre, hoje diretor nacional de Jornalismo, em um momento que define como um dos mais emocionantes de sua carreira.

Trinta e sete anos depois, a história iniciada naquele estúdio terá um novo capítulo. A Band realiza neste domingo (23) o primeiro debate entre os candidatos à Presidência nas eleições de 2026.

À frente do Jornalismo da Band em 1989, Mitre colocou a realização do encontro no plano de cobertura da primeira eleição presidencial após a ditadura militar. A emissora já acumulava experiências com debates municipais e estaduais, mas nunca havia sido realizado um confronto entre candidatos à Presidência no País.

“Quando eu cheguei, dirigindo o jornalismo da Band, eu pensei no debate presidencial. Esse, sim, seria o primeiro da história. E foi assim que nasceu, numa reunião de pauta, onde eu apresentei o meu plano de cobertura eleitoral”, recorda.

A ideia também respondia a uma característica daquela eleição. Depois de tantos anos sem uma disputa presidencial pelo voto popular, havia eleitores que nunca tinham escolhido diretamente um presidente. Para o jornalista, era preciso apresentar os candidatos e colocá-los diante uns dos outros para discutir suas ideias.

O estúdio acabou reunindo nove presidenciáveis: Luiz Inácio Lula da Silva, Leonel Brizola, Mário Covas, Paulo Maluf, Affonso Camargo, Guilherme Afif Domingos, Roberto Freire, Aureliano Chaves e Ronaldo Caiado. Fernando Collor, que venceria a eleição, e Ulysses Guimarães foram convidados, mas não compareceram.

“Tinha tudo ali. Representava todo o conjunto de ideias e bandeiras em confronto no Brasil naquele momento de democracia iniciante, ainda amadurecendo”, diz o jornalista sobre a diversidade política do grupo.

Regras também tiveram de ser inventadas

O pioneirismo trouxe outro desafio: não havia no Brasil um modelo de debate presidencial a ser seguido. Mitre se lembrava do histórico encontro entre John Kennedy e Richard Nixon nos Estados Unidos, em 1960, mas considerava aquela experiência muito diferente da que pretendia colocar no ar.

As normas do debate brasileiro, portanto, tiveram de ser construídas praticamente do zero.

“Eu fiz as regras, apresentei em reuniões com os assessores, e as reuniões eram longas, complexas. As regras foram nascendo e foram sendo aperfeiçoadas ao longo dos anos”, conta.

O resultado foi um primeiro debate bem mais livre do que os realizados atualmente. As câmeras podiam abandonar quem estava com a palavra para registrar uma discussão entre outros candidatos, por exemplo. Também não havia a atual dinâmica de pedidos de direito de resposta.

A experiência de 1989 serviu de ponto de partida para um formato que mudou eleição após eleição. Houve momentos, segundo Mitre, em que as regras ficaram excessivamente rígidas, antes de novos ajustes devolverem maior liberdade ao confronto.

“A cada ano eleitoral nós acrescentamos qualidade. Tem sempre mais um passo qualitativo. É uma tradição que, longe de ser uma repetição, é uma evolução permanente”, afirma.

‘Talvez a maior emoção profissional da minha vida’

Para Mitre, a lembrança de 1989 não se resume à criação de um formato de televisão. Como repórter, ele havia acompanhado o comício do então presidente João Goulart na Central do Brasil, em 13 de março de 1964, às vésperas do golpe militar. Anos depois, participou da cobertura da campanha das Diretas Já.

Quando entrou no estúdio para aquele primeiro debate, viu políticos de correntes que haviam passado décadas afastadas de uma disputa presidencial direta dividindo o mesmo espaço.

“Foi importantíssimo para o Brasil e, fundamentalmente, para mim. Eu, como jornalista, como profissional, talvez tenha vivido ali o momento de maior emoção da minha vida”, diz.

A imagem daquele estúdio, em sua visão, simbolizava o país que saía de um período marcado por prisões, exílios e restrições políticas e voltava a colocar projetos distintos diante do eleitor.

“Ele ficou uma referência fundamental, não só do jornalismo, mas da democracia brasileira. Marcou a abertura de uma nova fase no País, que é o confronto de ideias.”

“Cada telespectador é um editor”

Se o princípio permanece, a maneira como o público acompanha os debates mudou radicalmente. Mitre lembra que, em 1989, uma questão importante para a equipe era decidir quais trechos seriam selecionados para o Jornal da Band.

Hoje, antes mesmo do fim do primeiro bloco, falas dos candidatos já foram recortadas, compartilhadas e comentadas nas redes sociais. “Cada telespectador hoje é um editor”, resume.

Para o jornalista, o debate passou a funcionar como “uma pedra no lago que não para mais”. O alcance do confronto não se encerra quando o mediador se despede: os trechos continuam circulando, produzindo repercussões e novos debates muito depois do fim da transmissão.

A tecnologia transformou a forma de consumir o conteúdo, mas, para Mitre, não mudou sua função principal. O debate deve permitir que o eleitor compare propostas, comportamentos e visões de país — e não apenas descobrir quem foi mais agressivo diante do adversário.

“Não se trata de uma briga, de uma luta de box. É outra coisa, é um confronto de ideias”, afirma.

É essa tradição que a Band retoma no domingo, 37 anos depois daquele primeiro encontro. Para Mitre, a relação da emissora com o formato ajuda a explicar por que os debates se tornaram parte de sua história: “Aqui é a história, é uma história democrática, porque é a casa do confronto de ideias.”

 

Band.com


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Joaquim Franklin

Formado em jornalismo pelas Faculdades Integradas de Patos-PB (FIP) e radialista na Escola Técnica de Sousa-PB pelo Sindicato dos Radialistas da Paraíba.

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