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Em cidade de 5 mil habitantes no interior da Paraíba, renda própria vira escudo contra a violência

Em cidade de 5 mil habitantes no interior da Paraíba, renda própria vira escudo contra a violência

Em São José do Sabugi, município de cerca de 5 mil habitantes no sertão da Paraíba, não há transporte público coletivo nem linhas de ônibus. A capital, João Pessoa, fica a quase 300 km; Campina Grande, a cerca de 160 km. Com pouca oferta de emprego formal, a dependência econômica é uma das barreiras que impedem muitas mulheres de sair de relações violentas. É a esse problema que a Secretaria Municipal das Mulheres e da Diversidade Humana responde com a iniciativa “Empreendedorismo feminino como instrumento de prevenção da violência contra a mulher”.

“A violência é igual em todo lugar, não tem distinção de classe nem de cor. Mas o enfrentamento é bem diferente num município pequeno”, afirma a secretária Nathalie Nóbrega, à frente da pasta desde julho de 2023. Ao assumir, ela priorizou o mapeamento da realidade das mulheres da cidade. O resultado apontou o empreendedorismo como caminho: como a estrutura municipal não consegue ofertar emprego formal para todas, a secretaria passou a investir na capacitação e na geração de renda própria.

Capital semente

Uma das ações de maior impacto foi o Capital Semente. Com um orçamento de R$5 mil, a secretaria selecionou, por edital, 10 beneficiárias, que receberam R$500 cada para iniciar ou fortalecer seus negócios.

Uma delas foi a confeiteira e estudante de Matemática Maria Gabriela da Silva Azevedo, a Gabi, de 20 anos. Ela começou a vender sobremesas aos fins de semana, com uma compra inicial de R$200, para custear os estudos em Patos, cidade a cerca de 70 a 80 km de distância. Com os R$500 do edital, comprou os materiais para sua primeira Páscoa, vendeu bem e reinvestiu o lucro: criou a marca Gabriela Açucareu, com logomarca própria, e passou a trabalhar com encomendas de caixinhas personalizadas. Hoje, planeja o cardápio de Natal.

“Aquela comprinha de R$200 virou o dobro, o triplo”, conta. Atualmente, a renda dela vem apenas dos doces, complementada às vezes por bolsa da faculdade, e foi o que permitiu que se mudasse para a sua própria casa. “Na nossa cidade, as poucas oportunidades que existem vêm, na maioria, da Secretaria da Mulher”, diz.

Cursos que conectam renda e prevenção

Além do capital semente, a secretaria oferece cursos de capacitação, e cada um deles inclui formação sobre violência. As participantes aprendem a identificar os sinais de alerta com ferramentas como o violentômetro e o “semáforo da violência”, expostos na sede da secretaria. Já foram ofertados cursos de design de sobrancelhas, penteados, manicure e podologia, e, neste ano, de gastronomia. Em agosto, durante o Agosto Lilás, uma oficina de cinco dias ensinou doces e sobremesas, com estrutura improvisada e colaborativa: a secretária levou o micro-ondas de casa, e as participantes levaram panelas e colheres. O encerramento do curso de gastronomia ocorreu em setembro, no Setembro Amarelo, com certificação pública e uma degustação aberta à população, sob o lema “Doce momento pela vida, a vida tem sabor”.

Todo ano, durante a festa junina de São Pedro, maior evento da cidade, a secretaria também organiza a Feira das Mulheres Empreendedoras, que reúne de 30 a 40 expositoras. “A gente pede: não compra na Shopee, compra das mulheres daqui”, diz Nathalie.

Prevenção e acolhimento

A secretária explica que o foco é evitar que a violência aconteça. “Eu sempre falo que a gente não quer cuidar de mulheres machucadas, a gente quer que a violência não aconteça”, afirma. Segundo ela, o município convive com a subnotificação, e muitas mulheres sofrem violência sem perceber. Por isso, a secretaria convida para os cursos as mulheres com dependência econômica ou em situação de risco já mapeadas, mesmo quando ainda não denunciaram.

Para as que decidem romper o ciclo, o município criou, por projeto encaminhado à Câmara Municipal, o aluguel social para mulheres vítimas de violência. Após a concessão da medida protetiva, a prefeitura garante moradia por seis meses, prorrogáveis, para que a mulher tenha condições de recomeçar.

A secretaria também busca parcerias para ampliar a oferta, principalmente por meio de editais. Já houve ações com o Sebrae de Patos, que levou palestras e eventos de capacitação, e articulações com o IFPB e a UFPB, por meio do programa Mulheres Mil. Quando possível, o município disponibiliza transporte para que as empreendedoras participem de feiras e eventos fora da cidade.

Finalista do prêmio

A iniciativa é finalista do prêmio “Antes que Aconteça”, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, na categoria “Justiça perto de quem precisa”. A categoria reconhece projetos que descentralizam e aproximam o acesso ao sistema de Justiça para mulheres e meninas, especialmente as que vivem em situação de vulnerabilidade ou isolamento.

A secretária Nacional de Acesso à Justiça do Ministério da Justiça e Segurança Pública (SAJU), Sheila de Carvalho, destaca que as iniciativas selecionadas partem de uma certeza.

“A violência contra a mulher pode ser interrompida antes de virar tragédia, antes do feminicídio, antes do silêncio, antes da desistência. E isso só é possível com rede, escuta e presença”, afirma. “Elas moveram. E elas se movem porque a justiça é democracia, e as mulheres são o seu pilar. Dias mulheres virão!”

 

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Joaquim Franklin

Formado em jornalismo pelas Faculdades Integradas de Patos-PB (FIP) e radialista na Escola Técnica de Sousa-PB pelo Sindicato dos Radialistas da Paraíba.

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