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Por que os voos domésticos no Brasil são tão caros?

Por que os voos domésticos no Brasil são tão caros?

Os preços elevados das passagens aéreas, especialmente evidenciados no caso de Belém durante a preparação para a COP30, reacenderam o debate sobre as tarifas domésticas no Brasil. O país lidera o ranking da América Latina, com média de US$ 135 por bilhete, quase o dobro do Peru (US$ 70), segundo levantamento da plataforma Mabrian.

Além da distância continental e do peso do combustível no custo das viagens, há uma combinação de fatores que explica por que os voos brasileiros são mais caros do que na Europa, nos Estados Unidos e até mesmo em vizinhos como Chile e Colômbia.

Concentração e custos estruturais

No Brasil, apenas três empresas dominam o mercado doméstico: Gol, Azul e Latam. Essa concentração reduz a concorrência e, consequentemente, limita a oferta de tarifas mais baixas.

Outro ponto é o alto custo estrutural. A aviação opera com aeronaves financiadas em dólares, mas arrecada em reais, o que gera instabilidade em momentos de variação cambial. Além disso, a carga tributária e as taxas aeroportuárias pesam sobre o preço final.

Segundo especialistas, países como México, Colômbia e Chile conseguiram baratear os bilhetes ao flexibilizar a regulação e reduzir custos operacionais. No Brasil, no entanto, as tentativas de introduzir o modelo low cost não prosperaram.

O peso do ambiente regulatório

As companhias aéreas também enfrentam um cenário jurídico desfavorável. O Brasil tem uma ação judicial contra empresas do setor a cada 0,52 voos, enquanto nos EUA ocorre apenas uma a cada 2.585 viagens. Isso eleva custos e inibe novos modelos de negócios.

“Na Europa, quem voa com companhias como a Ryanair sabe que terá de pagar por cada serviço extra. No Brasil, a regulação e o perfil do consumidor não criaram espaço para esse tipo de prática”, explica o especialista Adalberto Felibiano.

Infraestrutura limitada

Outro desafio é a falta de aeroportos alternativos nas grandes cidades. Enquanto regiões como Nova York e Paris contam com vários terminais, que atraem companhias de baixo custo, São Paulo depende basicamente de Congonhas e Guarulhos. Opções como São José dos Campos carecem de estrutura adequada.

A história recente mostra que o modelo low cost não vingou. A Webjet, que operava nesse formato, foi comprada pela Gol em 2011 e extinta no ano seguinte, sob a alegação de inviabilidade econômica.

Desafios regionais

Nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o problema é ainda mais grave. Rotas como Belém–Brasília frequentemente ultrapassam R$ 2 mil ida e volta, com poucas opções de horários e escalas demoradas.

Segundo o consultor Olivier Girard, a escassez mundial de aeronaves, sobretudo de médio porte, agrava a situação. As companhias priorizam rotas curtas e lucrativas, como São Paulo–Rio, em detrimento de trajetos longos e menos rentáveis, como Manaus–São Paulo.

Nos EUA e no Canadá, subsídios governamentais garantem voos em regiões remotas. Já na Argentina, a estatal Aerolíneas Argentinas assume o papel de manter a conectividade, mesmo em rotas deficitárias.

Pouca concorrência de outros modais

Um último fator é a ausência de transporte ferroviário eficiente. No trecho Rio–São Paulo, por exemplo, não existe alternativa de alta velocidade, diferentemente do que ocorre na Europa. O trem-bala, prometido desde os anos 2000, segue no papel, embora em 2023 o governo tenha dado nova autorização para estudos de viabilidade.

Na prática, a falta de concorrência com outros modais reforça a dependência do transporte aéreo e mantém as passagens em patamares elevados.

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Joaquim Franklin

Formado em jornalismo pelas Faculdades Integradas de Patos-PB (FIP) e radialista na Escola Técnica de Sousa-PB pelo Sindicato dos Radialistas da Paraíba.

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