Russia e Ucrania avançam para acordo e cessar fogo entre os Países

Rússia e Ucrânia avançaram nas negociações para encontrar um cessar-fogo na invasão promovida por Vladimir Putin no país vizinho, que completará três semanas na madrugada desta quinta (17).

Não que a paz esteja à mão: novos ataques russos em Kiev e em outras cidades do país, como Kharkiv, indicam a resolução do Kremlin de manter a pressão militar alta enquanto tenta arrancar os termos mais próximos de suas demandas dos ucranianos.

O presidente ucraniano, o acuado Volodimir Zelenski, disse em mensagem nesta quarta (16) que “os encontros continuam e as posições durante as negociações já soam mais realistas”. “Mas tempo ainda é necessário para as decisões que sejam do interessa da Ucrânia”, afirmou. As conversas virtuais seguem.

O chanceler russo, Serguei Lavrov, concedeu entrevista ao site RBC e disse que há “esperança de acomodação” acerca da neutralidade que Moscou quer ver entronizada na Constituição da Ucrânia, rejeitando a possibilidade de adesão à Otan (aliança militar ocidental).

O Kremlin, comentando o caso, foi além, e sugeriu que a Ucrânia deveria olhar para os modelos da Áustria e da Suécia de neutralidade. “Essa é uma variante que está sendo discutida e que poderia ser vista como um acordo”, afirmou o porta-voz Dmitri Peskov.

O caso austríaco é mais eloquente. Ocupado pelos Aliados e pela União Soviética, em vez de ser dividido como a Alemanha no pós-guerra o país inseriu em sua Constituição uma renúncia a participar de pactos militares, em 1955. Mais significativo para a Ucrânia, em 1995 Viena entrou na União Europeia, outro desejo de Kiev malvisto pelo Kremlin.

Neste caso, disse Peskov, a Ucrânia seria desmilitarizada, como prometeu Putin, mas manteria Forças Armadas. Os ataques a fábricas de material de defesa ucranianos, intensificados nesta semana, podem indicar que os russos querem deixar a tal desmilitarização feita na prática.

Já a Suécia é um exemplo mais complexo. Sua neutralidade veio após o fim das guerras napoleônicas, com a chamada Política de 1812. Ela não integra a Otan, mas tem uma sofisticada indústria de defesa criada de olho na Rússia, e está bastante integrada à aliança. Tanto ela como a também neutra Finlândia têm discutido uma adesão formal ao pacto.

“O status neutro está sendo discutido seriamente agora, juntamente, claro, com garantias de segurança”, afirmou Lavrov.

Tais garantias já estavam colocadas no ultimato feito em dezembro por Putin, enquanto juntava tropas em torno do vizinho. Para o russo, estrategicamente é inaceitável ter um país da Otan do tamanho da Ucrânia nas suas fronteiras. Dois séculos de invasões por ali pesam no processo decisório.

O russo quer restaurar a chamada profundidade estratégica, ter aliados ou países neutros a seu redor, como nos tempos do Império Russo ou da União Soviética. Desde o fim do bloco comunista, a Otan abocanhou 14 países a leste, aproveitando-se da fraqueza russa.

Na Geórgia (2008) e na Ucrânia (2014 e agora), Putin ignora o direito internacional para fazer valer seu ponto de vista quanto outros meios não funcionam: na Belarus, na Ásia Central e no Sul do Cáucaso, logrou manter aliados na base do apoio.

Deixar Kiev fora da Otan era a demanda central, pública, da Rússia, mas nem de longe a única. Lavrov não falou sobre a questão do reconhecimento das áreas russófonas que estão “de facto” fora do controle de Zelenski, como a Crimeia (anexada por Vladimir Putin em 2014) e o Donbass (autônomo e em guerra civil desde o mesmo ano).

Na terça (15), Zelenski havia admitido que a Ucrânia tem “as portas fechada” na Otan, em encontro virtual com líderes europeus. Ele basicamente os culpou por não cumprir a promessa de admissão ao clube feita em 2008, inferindo que se fosse membro da aliança não teria sido atacado por Moscou devido à cláusula de defesa mútua vigente.

Lavrov também disse que há avanços na possibilidade de restaurar o russo como segunda língua em escolas e levantar o que chamou de veto à liberdade de expressão na língua de Moscou –nos últimos anos, houve uma progressiva supressão em favor do ucraniano.

Já o negociador-chefe russo, Vladimir Mendiski, disse à agência Interfax que as “negociações são duras e vão devagar”. “Claro que queremos que ocorram mais rapidamente. Nós queremos chegar à paz assim que possível. Queremos uma Ucrânia livre, independente e neutra, não um membro de blocos militares, não um membro da Otan”, disse.

Naturalmente, na prática o Kremlin quer a rendição de Zelenski e aumenta a intensidade de seus ataques, embora não tenha feito uma ofensiva decisiva -no sentido de tentar encerrar a guerra com armas, tomando Kiev, por exemplo.

Os dois lados jogam, afinal, apesar da horrenda destruição de vidas e cidades ucranianas. Há mais de 3 milhões de refugiados e os mortos civis se contam na casa dos milhares, embora nenhuma estimativa pareça exatamente confiável a esta altura. Baixas militares, então, são insondáveis: os russos pararam de contar em 500 na primeira semana, os ucranianos exageram dezenas de milhares de invasores mortos.

Joaquim Franklin

Formado em jornalismo pelas Faculdades Integradas de Patos-PB (FIP) e radialista na Escola Técnica de Sousa-PB pelo Sindicato dos Radialistas da Paraíba.

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