Possibilidade de transmissão de cepa mais letal da gripe aviária é investigada
Primeiro, foram as aves asiáticas. Depois, os visons de uma fazenda de criação espanhola. Então, no início do ano, o vírus H5N1 — a cepa mais letal e contagiosa da gripe aviária — provocou a mortalidade em massa de leões-marinhos que viviam em praias e reservas peruanas. Ainda não é possível afirmar que esses animais passaram o micro-organismo uns para os outros. A hipótese, porém, não foi descartada. Se confirmada, significará algo péssimo para um mundo ainda sob a pandemia da covid-19: a capacidade de transmissão do patógeno entre mamíferos.
A comprovação de que os mais de 600 leões-marinhos estavam infectados pelo H5N1 foi feita na semana passada, em um artigo da plataforma pré-publicação bioRxiv. O Laboratório de Genômica da Pontifícia Universidade Católica do Peru testou amostras de secreções nasais coletadas nos mamíferos mortos e detectou o micro-organismo. Como o país sul-americano sofreu um grave surto de gripe aviária no fim do ano passado — 50 mil aves selvagens padeceram em reservas e áreas não protegidas —, é possível que o contágio tenha ocorrido pelo contato com as carcaças, incluindo a ingestão.
Essa também é uma hipótese para o caso de focas infectadas que morreram nos Estados Unidos e na Alemanha. O que intriga os pesquisadores peruanos e argentinos é a quantidade de leões-marinhos mortos. “Não podemos excluir a transmissão direta devido à sua reprodução colonial e porque muitos animais morreram simultaneamente em grupos”, escreveram os cientistas da Universidade Nacional de Comahue, em Bariloche, e do Serviço Nacional de Áreas Naturais Protegidas pelo Estado, em Lima. Eles ressaltam, porém, que os testes genéticos realizados até agora são insuficientes para decifrar a linha de transmissão viral.
“A preocupação atual é o número crescente de infecções com alta mortalidade em diferentes espécies de mamíferos marinhos e terrestres”, concorda a professora associada da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Helena Lage Ferreira. Ela, porém, ressalta que, até agora, a infecção de mamíferos pelo H5N1 é esporádica.
“O vírus não infecta os seres humanos facilmente, e a transmissão entre pessoas é rara. A maioria dos casos (em humanos) foi de pessoas que se infectaram após a exposição direta a aves vivas ou mortas infectadas ou a ambientes contaminados”, diz Ferreira. Segundo a pesquisadora, com dois pós-doutorados em influenza aviária, desde 2003, foram notificados 869 casos de infecções em pessoas por influenza e 457 mortes em 22 países, incluindo uma criança no Equador, há um mês.
Correio Braziliense


